O juiz que participou de uma constelação permanece imparcial?

Nasa

Somente à distância, com um ângulo ampliado de visão, se vê que a terra é redonda.  Foto: NASA

Já soube de alguns questionamentos a respeito disso, em geral vindos de pessoas que não (ou pouco) conhecem a constelação e, portanto, não sabem das suas múltiplas possibilidades e formas, nem puderam conhecer a prática na fonte.

Motivei-me a publicar este texto a respeito depois de ser consultado acerca de uma pesquisa acadêmica, que tentava responder se é adequado um juiz participar da prática das constelações realizadas em processos nos quais atua. A pesquisadora apresentou um questionário que perguntava, entre outras coisas, se a participação na constelação garante que o magistrado fique “despido de qualquer parcialidade”. Ora, não é fácil encontrar na face da terra alguém despido de qualquer parcialidade, ou algum procedimento que garanta tal coisa.
Obviamente, da forma como foi redigido o questionário, a tendência é que se responda NÃO, num primeiro impulso, pois a constelação não garante que o magistrado esteja despido de qualquer parcialidade. A mesma pergunta, se feita em relação a outros procedimentos jamais questionados, como a audiência de conciliação ou o atendimento ao advogado de uma das partes no gabinete do juiz, ensejaria a mesma resposta.
Além disso, é importante considerar que:
1 – ANTES da constelação dificilmente alguém está despido de qualquer parcialidade. Na prática, a imparcialidade absoluta quase não existe. As pessoas fazem seus julgamentos tendo como referência suas experiências anteriores e suas memórias conscientes ou inconscientes. Ou seja, o juiz (e qualquer pessoa) geralmente já vem “de casa” com tendências e inclinações.
2 – Há diversos fatores que podem influenciar na parcialidade do julgador, dependendo da sua maturidade, como identificação pessoal com as dores de alguém, atitudes vitimistas das partes, retórica maliciosa, disparidade na qualidade da defesa. A primeira impressão obtida na audiência de conciliação (que há muitos anos pode ser conduzida pelo juiz) também pode levar o julgador a ter simpatia ou repulsa por alguma das partes e pender para um lado.
3 – Todo juiz, como qualquer pessoa, está sujeito a ser influenciado de várias maneiras, inclusive por argumentos falaciosos, clamor social, boatos, “fake news” ou uma paixão qualquer (por uma pessoa, time, religião, ideologia, etc.), que tentam desviá-lo do olhar para a realidade. A experiência e a maturidade podem minimizar esse problema, mas não isentam qualquer pessoa. A constelação também pode influenciar, mas, se feita de forma séria, trará uma visão mais conectada à realidade e lançará luz sobre a situação, evidenciando o que parecia verdade mas não passava de ilusão. O juiz parcial não precisa de constelação para ser parcial, e para isso pode-se alegar sua suspeição. E aquele que busca ser imparcial tem na constelação um instrumento a seu favor, para aumentar a isenção.
4 – Há formas e formas de constelar, consteladores mal capacitados, cursos de formação “expressos” de poucos dias ou meses, que consideram a constelação como uma simples técnica, sem a necessidade de desenvolvimento pessoal do constelador. A isenção do julgador depende menos da constelação (em geral, enquanto prática) do que da capacidade do profissional, vinculada ao seu nível de desenvolvimento pessoal. Há consteladores que induzem os movimentos e sugestionam compreensões (pois já têm um julgamento anterior ou agem com intenção). E a maioria dos cursos entregam certificados mas não ensinam a conexão com o campo fenomenológico, a agir sem intenção, a seguir com os movimentos da alma, com o mínimo de palavras – ao invés de conduzir a constelação segundo sua própria intenção.
5 – A constelação coloca algo em movimento na alma das pessoas. Por vezes, algumas transformações são percebidas de imediato e as pessoas envolvidas relatam, logo nos primeiros dias, que um antigo conflito desapareceu ou que aquela pessoa, com quem não conseguia falar há anos, telefonou no dia seguinte à constelação e retomou uma relação carinhosa. Outras vezes, esse movimento pode demorar meses ou até anos. E há casos em que o movimento não acontece, por não haver um amadurecimento das pessoas envolvidos ou quando ele depende do próprio interessado e este não se dispõe a fazê-lo, por preferir não pagar o preço por isso (uma renúncia, por exemplo) ou optar pela comodidade de permanecer na postura de vitimização.
Na maioria dos casos, contudo, algum movimento acontece, de modo que o retrato obtido depois da constelação já não é mais o mesmo de antes. Algo mudou, alguém se transformou. O simples fato de uma pessoa olhar, na constelação, para algo que estava oculto e lhe dirigia a postura ou atitude inconsciente, lhe permite a modificação. Isso é visível, muitas vezes, na própria constelação, quando as pessoas demonstram uma transformação, gerando consequentemente movimentos nas outras pessoas no campo.
Assim, via de regra, qualquer julgamento com base no que foi visto na constelação é injusto, na medida em que a situação já não é mais a mesma. O julgamento nos autos olha para as provas dos fatos ocorridos no passado, visando uma responsabilização; o movimento da constelação é do presente para o futuro, visando uma liberação. Cada um tem o seu lugar. Ambos podem e devem ser complementares.

Conclusão

A constelação é uma abordagem, por si mesma, inclusiva a todos os envolvidos, capaz de promover o entendimento e a conciliação. Ao olhar para o todo, de forma ampla, é neutra em relação a qualquer das partes e auxilia sobremaneira o campo jurídico ao permitir que as causas verdadeiras do conflito venham à tona. O que é feito daí em diante é de responsabilidade de cada um.
Por si só, a constelação não torna alguém parcial ou isento. Se praticada por alguém parcial, pode ser um instrumento de sugestionabilidade para pessoas mais influenciáveis. Contudo, praticada de forma séria e responsável, por profissionais bem capacitados, facilita ao julgador a possibilidade de “dar um passo atrás” e enxergar a questão de forma mais ampla e clara, conectando seu movimento ao campo sistêmico e tornando-se mais isento e eficaz. Assim são as constelações desenvolvidas por Bert Hellinger e praticadas pelos que acompanham suas compreensões. Uma constelação feita de forma responsável, por um facilitador bem preparado, não oferece o risco temido.

 

Sendo algo novo, é natural que a utilização das constelações no Judiciário suscite dúvidas, estranhamentos e questionamentos diversos, como toda nova teoria e abordagem no curso da história. É válido e importante que se investigue, com seriedade, seus limites, possibilidades e resultados, bem como eventuais cuidados necessários – tais como zelar pela qualidade da sua prática. Daí a importância de promover capacitações responsáveis, consistentes e continuadas, de modo que as constelações possam realizar seu potencial na vida das pessoas e no Judiciário.

Com um conhecimento mais aprofundado do tema, o questionamento que ensejou este artigo não se sustenta.
Sami Storch (07/06/2020)

Sobre Sami Storch

Juiz de Direito no Estado da Bahia, atualmente em exercício na Comarca de Itabuna. Graduado na Faculdade de Direito da USP, Mestrado em Administração Pública e Governo (EAESP-FGV/SP) e Doutorando em Direito na PUC-SP, com tese em desenvolvimento sobre o tema "Direito Sistêmico: a resolução de conflitos por meio da abordagem sistêmica fenomenológica das constelações familiares". Cursei diversos cursos de formação e treinamentos em Constelações Sistêmicas Familiares e Organizacionais segundo Bert Hellinger e hoje coordeno e leciono no Curso de Pós-Graduação Hellingerschule de Direito Sistêmico pela Faculdade Innovare. Desde 2006, venho ministrando palestras e workshops de constelações familiares e obtendo altos índices de conciliações com a utilização dos princípios e técnicas das constelações sistêmicas para a resolução de conflitos na Justiça. Meu foco é a aplicação prática, no exercício das atividades judicantes, dos conhecimentos e técnicas das constelações familiares. O objetivo é utilizar a força do cargo de juiz para auxiliar na busca de soluções que não apenas terminem o processo judicial, mas que realmente resolvam os conflitos, trazendo paz ao sistema. Contato: direitosistemico@gmail.com
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6 respostas para O juiz que participou de uma constelação permanece imparcial?

  1. Vera Lucia Soriani disse:

    Gratidão querido mestre. Fiz seus cursos em Belo Horizonte. E o Congresso Internacional de Direito Sistemico. Essa mensagem avaliza profundamente, mais uma vez, sobre a utilização das Constelações no Direito. Sou Psicoterapeuta e Consteladora Sistêmica, fazendo parte da Comissão de Direito Sistemico aqui na cidade de Ribeirão Preto,SP, fazendo parte da aplicação das Constelações, no Anexo Violência Doméstica, da Vara da Família, da Juíza Dra. Carolina Gama. Eu pessoalmente iniciei os atendimentos na Delegacia da mulher, e estou esperando terminar o isolamento para voltar. Sinto muito falar tanto de mim, mas para dizer de quando o Sr. me inspirou há tantos anos atrás da primeira postagem sobre essa ferramenta. Acompanho o Sr. e sinto e veja sua simplicidade e delicadeza com todos, em várias situações. Gratidão, seja sempre iluminado, protegido amparado pelo Criador e equipe de Anjos Guardiões. Sua aluna de sempre Vera Lúcia Soriani

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  2. Parabenizando pela iniciativa em prol do Bem Autêntico e assim construiremos uma Sociedade Espiritualizada e Saudável cuja base é a Verdade do Criador da Vida. Bert e Sophie Hellinger são os ILUMINADOS da Nova Era, junto com Mokiti Okada, criador do Método de Saúde Okada. http://www.moa.org.br

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  3. VERA LUCIA SORIANI disse:

    Em seg., 8 de jun. de 2020 às 11:28, Vera Lucia Soriani escreveu:
    Gratidão querido mestre. Fiz seus cursos em Belo Horizonte. E o Congresso Internacional de Direito Sistêmico. Essa mensagem avaliza profundamente, mais uma vez, sobre a utilização das Constelações no Direito. Sou Psicoterapeuta e Consteladora Sistêmica, fazendo parte da Comissão de Direito Sistêmico aqui na cidade de Ribeirão Preto,SP, fazendo parte da aplicação das Constelações, no Anexo Violência Doméstica, da Vara da Família, da Juíza Dra. Carolina Gama. Eu pessoalmente iniciei os atendimentos na Delegacia da mulher, e estou esperando terminar o isolamento para voltar. Sinto muito falar tanto de mim, mas para dizer de quando o Sr. me inspirou há tantos anos através da primeira postagem sobre essa ferramenta. Acompanho o Dr. e sinto e vejo sua simplicidade e delicadeza com todos, em várias situações. Gratidão, seja sempre iluminado, protegido amparado pelo Criador e equipe de Anjos Guardiões. Sua aluna de sempre Vera Lúcia Soriani

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  4. Pingback: DIREITO SISTÊMICO NO JUDICIÁRIO – Anima Mediação Sistêmica

  5. Arthur Bortolotto disse:

    Meu deus eu nunca li tanta merda na minha vida inteira. Você realmente se acha capaz de exercer sua profissão?

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