Drogadição, internação compulsória e as constelações no tratamento do vício

A aplicabilidade das constelações para auxiliar o tratamento de questões que chegam ao Judiciário vai além da Vara de Família, já havendo experiências bem sucedidas também no trato de questões criminais (tanto ajudando a trazer mais consciência ao autor do crime quanto facilitando às vítimas o processo de conformação e empoderamento), na Vara de Infância e Juventude, nas Execuções Penais, em casos de violência doméstica e até trabalhistas e empresariais.

Tivemos uma experiência interessante na Vara Cível (de feitos em geral) da Comarca de Valença (BA), que compartilho aqui no sentido de contribuir no debate quanto às políticas públicas possíveis para tratamento da questão da cracolândia e as propostas de internação compulsória.

No caso narrado abaixo, confirmou-se que, para o viciado, a droga representa alguém da família que foi excluído (segundo Bert Hellinger, quase sempre o pai). O resultado foi muito bom e a dinâmica que se mostrou pode servir de exemplo para alguns outros casos.

A constelação foi feita durante vivência dedicada aos processos da 2ª Vara Cível com a presença de cerca de 120 pessoas, entre partes envolvidas nas ações, profissionais do direito, estudantes e outros convidados.

Depois da costumeira explanação sobre as ordens sistêmicas, como a sua violação pode levar alguém a se envolver em conflitos e como o conhecimento pode auxiliar no seu desemaranhamento, fizemos uma meditação e expliquei brevemente como funcionam as constelações. Em seguida, durante o intervalo, uma senhora me pediu para olhar para a questão que a levou a ingressar com uma ação judicial, por meio da Defensoria Pública. Ela estava acompanhada de uma assistente social que vinha acompanhando o seu caso.

Sua filha de 35 anos, que era viciada em crack e tinha transtornos mentais, vinha ameaçando e agredindo pessoas na rua, inclusive com faca, e quebrava as coisas dentro de casa. Como ela não aceitava qualquer ajuda ou tratamento e se recusava a tomar os remédios receitados, a mãe pediu judicialmente a internação compulsória da filha em instituição de tratamento e desintoxicação. A liminar fora concedida, e há alguns dias a filha já tinha sido internada.

Chamei à frente aquela senhora, que falou sobre seu caso, e então chamei também o pai da garota, para que se sentasse ao nosso lado. E iniciei a constelação com representantes para a filha e para o crack (também uma mulher), colocando-as frente a frente, a uns dois metros de distância.

O crack logo se aproximou da garota, colocando-se ao seu lado, e ambas olharam-se com cumplicidade e um discreto sorriso.

Em seguida, coloquei uma representante da mãe, que se posicionou de frente para a filha, a uns quatro metros. O crack imediatamente se colocou entre as duas, de frente para a filha, com os braços abertos, impedindo que a filha se aproximasse da mãe, como se dissesse que não deixaria isso acontecer. A mãe, então, sentada ao meu lado, começou a gritar alto: “Não!!! Você não vai tocar nela!!!”

Estava claro que havia algum excluído na família, para quem a mãe não admitia um lugar.

Incluí um representante para o pai, que se colocou ao lado da mãe, mas a cerca de meio metro. A representante do crack foi para esse espaço entre o pai e a mãe, e ficaram os três lado a lado. A representante da mãe ficou nervosa, com raiva. O representante do pai olhava para outro lado, indiferente. E a mãe, ao meu lado, fechava os olhos, sem querer olhar. Quando pedi que ela olhasse para a representante do crack, ela gritou “eu não quero! Eu não vou olhar pra isso!” e manteve os olhos fechados.

Eu disse, então, que geralmente a droga representava alguém excluído. Vi que algo traumático tinha acontecido, e perguntei também se tinha havido algum relacionamento anterior que tivesse sido muito difícil. Ela disse que, antes de se separar do pai da garota, os dez anos de casamento foram muito difíceis, pois tinha sido obrigada pelo seu próprio pai a casar.

Falei que a representante do crack representava, na verdade, um homem, e pedi à mãe que olhasse para ele. Mas ela se recusou. Então pedi que a representante da filha olhasse e dissesse: “você tem um lugar fundamental na minha vida”. Ela disse isso e ambos sorriram um para o outro. “Eu vivo graças a você, e eu te honro.” A mãe já abrira os olhos, mas ainda não olhava para a representante do crack (que na verdade representava o homem excluído). Pedi que a filha dissesse à mãe: “mesmo você não olhando, eu olho e honro o vovô”.

A mãe estava chorando, emocionada. Pedi a ela que olhasse para o seu pai e dissesse “obrigado”, mas ela não conseguiu.

Expliquei que, apesar de ter sido muito difícil para a mãe ter sido obrigada a casar, somente porque isso aconteceu a sua filha pôde vir ao mundo e existir. Se o avô não tivesse feito aquilo, a mãe não teria se casado nem tido aquela filha. Se ela amava a filha, teria que, a despeito de tudo o que sofrera, reconhecer e agradecer pelo que seu pai fez, pois aquilo foi fundamental à existência da filha, que em sua alma sabia disso, mesmo que de forma inconsciente e doentia. Então a mãe conseguiu olhar e dizer “obrigada”.

A partir do momento em que a mãe pronunciou essa palavra, “obrigada”, as representantes da neta e do avô ficaram visivelmente sensibilizadas e então, lenta e espontaneamente, fizeram novos movimentos: o avô foi até a neta e a abraçou carinhosamente; algum tempo depois, também a representante da mãe se juntou ao avô e à filha no abraço; e assim ficaram, as três juntas no abraço, por uns dois minutos. Para quem estava assistindo, foi uma cena tocante.

Coloquei mais uma pessoa, a uma pequena distância, representando a vida, e pedi à filha que olhasse. Ela então soltou-se das outras duas (mãe e avô) e se colocou ao lado da vida. Disse que agora ali se sentia em paz, e sorria ao olhar para a mãe e o avô, que também se sentiam bem. Naquele momento, interrompemos a constelação.

Poucos dias depois, a assistente social esteve no meu gabinete e falou como estava impressionada com os resultados da constelação. A mulher (mãe da mulher que havia sido internada compulsoriamente) estava muito mais tranquila; um ou dois dias após a constelação, sua filha havia lhe telefonado, da instituição onde se encontrava internada, e conversaram de forma carinhosa e tranquila, como há alguns anos não acontecia; e da instituição recebeu a notícia de que ela teve melhora sensível e, possivelmente, a alta estava próxima.

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Próximas Vivências de Constelações Familiares na 2a. Vara de Família de Itabuna, com o tema “separação de casais, filhos e o vínculo que nunca se desfaz” (separações/divórcios, alimentos e guarda), sempre a partir das 8:30 horas:

28 de fevereiro de 2018

21 de março de 2018

18 de abril de 2018

23 de maio de 2018

13 de junho de 2018

Informações complementares:

  • Sempre das 08:30 às 12:00 horas, no Salão do Juri do Fórum Rui Barbosa – Itabuna/BA.
  • Advogados e partes com processos na 2ª Vara de Família podem solicitar a inclusão de seu processo na pauta das vivências, caso em que todas as partes e advogados serão convidados a participar, com realização da audiência do respectivo processo nas semanas seguintes.
  • O evento é coletivo (com as pessoas envolvidas em diversos processos, além de interessados em geral). A participação de cada pessoa não depende da presença das outras partes.
  • Ingresso permitido aos interessados, sujeito à capacidade do local. Sugerimos fazer inscrição prévia c/ Dra. Layala (Assessora de Gabinete): (73) 3214-6226.

Sobre Sami Storch

Juiz de Direito no Estado da Bahia, atualmente em exercício na Comarca de Itabuna. Graduado na Faculdade de Direito da USP, Mestrado em Administração Pública e Governo (EAESP-FGV/SP) e Doutorando em Direito na PUC-SP, com tese em desenvolvimento sobre o tema "Direito Sistêmico: a resolução de conflitos por meio da abordagem sistêmica fenomenológica das constelações familiares". Cursei diversos cursos de formação e treinamentos em Constelações Sistêmicas Familiares e Organizacionais segundo Bert Hellinger e hoje coordeno e leciono no Curso de Pós-Graduação Hellingerschule de Direito Sistêmico pela Faculdade Innovare. Desde 2006, venho ministrando palestras e workshops de constelações familiares e obtendo altos índices de conciliações com a utilização dos princípios e técnicas das constelações sistêmicas para a resolução de conflitos na Justiça. Meu foco é a aplicação prática, no exercício das atividades judicantes, dos conhecimentos e técnicas das constelações familiares. O objetivo é utilizar a força do cargo de juiz para auxiliar na busca de soluções que não apenas terminem o processo judicial, mas que realmente resolvam os conflitos, trazendo paz ao sistema. Contato: direitosistemico@gmail.com
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4 respostas para Drogadição, internação compulsória e as constelações no tratamento do vício

  1. Neuza G. Gaspar disse:

    Maravilhoso e transformador. esse trabalho com as constelações sistêmicas! Eu tbm sou facilitadora em constelações à 9 anos. E cada dia me surpreendo mais. Obrigada Dr. Sami Storch, por compartilhar esse trabalho magnífico!

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  2. Fico emocionada cada vez que leio um relato onde foi possível haver um movimento para o positivo, por meio das constelações aplicado ao Direito. Sou grata pela sua vida Dr. Sami Storch, por ter iniciado esse trabalho, porque por meio da sua iniciativa, muitas vidas são alcançadas e transformadas para melhor. Simplesmente, fico plena e feliz.

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  3. Elô disse:

    Grande mestre, com você posso aprender todos os dias. Gratidão, namastê!

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  4. flau44 disse:

    Movimento grandioso! Cura quântica escancarada de inclusão! Lindo!

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